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    Rádio Fraiburgo 95.1

Entre o diagnóstico e a luta diária: mãe relata desafios de criar filho com autismo em SC

Entre o diagnóstico e a luta diária: mãe relata desafios de criar filho com autismo em SC
(foto: Ana Quinto/Agência Alesc)

Abril de 2022, mês marcado pela conscientização sobre o autismo, foi também o ponto de virada na vida de Nadynne Chagas, em Santa Catarina. Naquele período, o filho Matheus, então com dois anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 3 de suporte, após uma sequência de investigações médicas iniciadas pelo atraso na fala.

A suspeita inicial era de surdez, o que levou a família a uma série de exames e consultas até a confirmação do autismo. O diagnóstico, segundo a mãe, trouxe um forte impacto emocional e mudou completamente a rotina familiar. Separada do pai da criança, Nadynne passou a assumir praticamente sozinha os cuidados do filho.

Hoje com seis anos, Matheus demanda acompanhamento constante, e a rotina da família é marcada por desafios que vão além do transtorno. A mãe relata dificuldades relacionadas à compreensão social sobre o autismo, além da sobrecarga física e emocional. Situações comuns dentro do espectro, como crises comportamentais e resistência a atividades cotidianas, ainda são frequentemente interpretadas de forma equivocada por quem está de fora.

Os caminhos

A trajetória da família também foi marcada por um episódio de violência. Matheus foi vítima de maus-tratos em uma escola particular da Grande Florianópolis, caso que resultou na condenação da responsável pela instituição. O episódio deixou sequelas emocionais e levou a mãe a um período de isolamento e dificuldade em confiar novamente o cuidado do filho a terceiros.

Apesar das adversidades, a família busca retomar a rotina. Matheus voltou à escola com acompanhamento especializado, e a mãe tenta reconstruir a própria vida após anos dedicados integralmente aos cuidados do filho.

Conscientização e benefício são lei em Santa Catarina

Paralelamente às histórias individuais, o tema tem ganhado espaço no debate público em Santa Catarina. Na Assembleia Legislativa (Alesc), a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência tem ampliado discussões e promovido ações voltadas ao apoio de famílias atípicas.

Entre as iniciativas recentes estão a criação da Semana e do Dia da Mãe Atípica, celebrado em 30 de novembro, além do programa “Cuidando de Quem Cuida”, voltado ao acolhimento dessas mulheres. Outro destaque é a Lei 18.557/2022, que prevê o pagamento de um salário mínimo mensal para mães em situação de vulnerabilidade social responsáveis por pessoas com autismo nível 3 de suporte.

O benefício atende famílias com renda de até dois salários mínimos e já alcança cerca de 467 famílias catarinenses, com investimento mensal superior a R$ 750 mil. A medida busca minimizar os impactos financeiros enfrentados por mães que, muitas vezes, precisam deixar o mercado de trabalho para se dedicar integralmente aos filhos.

Mesmo com avanços, desafios persistem, especialmente na área da educação. Segundo o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, deputado Dr. Vicente Caropreso, ainda há desigualdades na estrutura oferecida por escolas, principalmente na rede municipal.

Dados recentes também apontam o crescimento dos casos de autismo. A prevalência, que antes era de um para cada 150 nascimentos, atualmente chega a um para cada 36, ampliando a demanda por políticas públicas nas áreas de saúde, educação e assistência social.

Diante desse cenário, o Parlamento catarinense tem promovido seminários e encontros em diversas regiões do estado. Para 2026, estão previstos 22 eventos, incluindo ações durante o Abril Azul, mês dedicado à conscientização sobre o autismo. Uma das iniciativas é a Caravana da Inclusão, que leva informação e orientação a famílias e profissionais.

Para Nadynne, no entanto, o principal desafio continua sendo a falta de compreensão da sociedade. Ela defende mais acolhimento e menos julgamento às mães atípicas, que enfrentam uma rotina intensa e, muitas vezes, invisível.

A ampliação de políticas públicas e o debate sobre o tema têm contribuído para dar mais visibilidade a essas famílias, que seguem buscando apoio, inclusão e reconhecimento.